Aline Ignácio: quando ensinar e criar revelam processos sociais e pessoais

Com olhar que atravessa diferentes ambientes, Aline conta à Maria Querina seu processo artístico.

Por: Rafaela Lohana

Imagem: Aline Ignácio

É possível a educação atravessar o processo criativo e vice-versa? Aline Ignácio, artista baixadense, nos responde e revela como o repertório cultural e social pode ampliar perspectivas.

Cria da escola pública há mais de 20 anos, hoje, ela colore o “chão da escola”. Entre a educação básica, técnica e superior, afirma que essa trajetória a construiu enquanto pessoa e que também constrói sentidos à educação por meio da sua arte.

Irmã mais velha de quatro filhos, conta que teve poucos recursos e grana no início da vida, mas que a sua mãe sempre incentivou os estudos. Afinal, ela dizia: “a gente é pobre, a gente é preto”. Confira a entrevista!

Maria Querina: Pode nos contar um pouco da sua trajetória? O caminho da educação sempre encontrou o caminho da arte?

Aline Ignácio: Quando penso na trajetória da minha vida, a educação sempre esteve presente. Minha mãe correndo muito atrás para sustentar a gente, para nos criar, falava: “ó, tem que estudar, não tem jeito. A gente é pobre, a gente é preto. Então, o que a gente tem na nossa vida é estudar”.

Ela também dizia: “eu vou trabalhar bastante para que vocês terminem pelo menos o ensino médio e sigam a vida de vocês. Antes disso, ninguém vai trabalhar nem fazer nada, vai estudar”. Então, tive isso muito forte em mim e segui esse caminho, aproveitando todas as oportunidades que me eram dadas.

Na faculdade, ainda sem saber qual escolha fazer, sendo a primeira da família a entrar no ensino superior, optou por Pedagogia. “Foi quando eu comecei a postar os meus desenhos na internet. Na época, eu já usava o Instagram, então comecei a postar desenhos e as frases que eu escrevia. Me recordo que, quando era criança, sempre gostei muito de me expressar por desenhos. Fazia desenhos nos trabalhos e gostava de escrever, mas sempre tive muita vergonha de expor isso para as outras pessoas, porque tinha medo de ser julgada, sabe? Das pessoas dizerem ‘olha, tá feio’, ‘olha, tá errado’”, conta Aline.

Depois de alguns anos, inclinou seu olhar para o lettering. Aos poucos, as pessoas passaram a se interessar pelo seu trabalho. “Começavam a querer comprar alguns desenhos, pediam pra eu fazer desenhos delas. Embora nem eu acreditasse muito no que estava fazendo, eu fazia e continuava porque, no fundo, eu sentia que podia fazer mais, sabe? Eu comecei a acreditar mais no meu potencial”.

Após se formar e já atuando na área da educação, decidiu seguir estudando. Agora, arte.

“Tô caminhando para o final da graduação. E sempre acreditando muito que a educação é o caminho. E, é a educação pública! Eu gosto muito de falar sobre isso, de deixar registrado, porque foi a educação pública que mudou a minha vida”, afirma Aline.

Imagem: Aline Ignácio

Maria Querina: Como a educação atravessa o seu processo criativo e influencia a forma como você constrói sua arte?

Aline Ignácio: Bom, a educação atravessa o meu processo criativo a partir do momento em que ela me possibilita ter um repertório maior, sabe? Um repertório cultural e social de quem eu sou e de como vou enfrentar os desafios.

Isso vem do processo da educação, seja ela formal ou informal. A educação é, o tempo inteiro, um jogo de ensino-aprendizagem. São sujeitos trocando entre si, não necessariamente só dentro da sala de aula. Ela acontece no cotidiano.

Seu processo enquanto professora também influencia diretamente nesse olhar investigativo. Para Aline, ser estudante é estar sendo atravessada, direta e indiretamente, por diferentes formas de pensar, de se expressar e de refletir sobre como levar algo para o mundo.

Imagem: Aline Ignácio

Embora nem eu acreditasse muito no que eu tava fazendo, eu fazia e continuava fazendo, eu continuava fazendo porque, no fundo, eu sentia que eu poderia fazer mais, sabe? Eu comecei a acreditar mais no meu potencial. — Aline Ignácio

Maria Querina: Entre seus trabalhos, tem algum que seja especialmente marcante para você? Qual e por quê?

Aline Ignácio: Uma das obras que eu mais gosto é a que fica na minha sala, logo acima da TV, assim, logo no começo da casa. É uma mulher, uma tela a óleo de uma mulher negra numa posição meio… como se fosse uma santa, talvez. Uma posição um tanto dramática e religiosa.

Ela conta que essa obra surge em um momento importante da sua vida: o início da faculdade de arte, atravessada pela perda da mãe e por um processo de luto intenso.

“A ideia era ser um estudo a partir de uma foto que eu peguei de referência na internet, de uma mulher negra. Eu queria retratar a minha mãe naquela posição, como se fosse a pessoa… Não santificada, mas sendo exaltada, estando em outro plano. Me surpreende porque foi um processo muito fluido e tranquilo para mim. Apesar de carregado de muita emoção, por conta do contexto em que ela foi feita; aconteceu naturalmente.” 

A artista acredita que esse processo pode ter sido “algo espiritual”, mesmo sem seguir uma religião específica. O nome da obra também se conecta à mãe, que era evangélica e acreditava que iria para o céu. Além disso, a frase presente na obra também vem de um trecho de uma das músicas de One. Para Aline, o resultado foi extraordinário, especialmente porque, naquele momento, ainda não tinha “nem a metade do referencial teórico e técnico” que possui hoje. 

Imagem: Aline Ignácio

Ela tem uma expressão em que eu consigo ver traços da minha mãe, mas as pessoas também conseguem ver traços meus. E eu, às vezes, quando olho, consigo ver algumas referências, alguma semelhança na expressão da figura que está pintada. E aí ela se tornou uma obra muito importante para mim, porque é isso. Eu a nomeei de Mamãe Nossa que Estás no Céu  — Aline Ignácio

Os conjuntos de memórias são sempre instigantes quando falamos de arte e beleza. A emoção de quem imprime e reproduz muda e completa diálogos infames nas nossas cabeças, e rotinas. 

Para conhecer Aline Ignácio, siga esse perfil.

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