Memórias e identidade – uma leitura de “Em busca de mim”

Por: Aline França-Souza

Imagem: Rakuten kobo

Mulher nascida em Rhode Island. Atriz. Produtora. Eleita – duas vezes – uma das cem pessoas mais influentes do mundo. CEO e Cofundadora de produtora voltada a conteúdos independentes. Vencedora de Oscar, Emmy, entre outros prêmios internacionais. Mãe. Esposa. Filha. Irmã. E mais. Muito mais. Essas são algumas das facetas de Viola Davis, que interpretou Annalise Keating em How to get away with murder; Rose Maxson, em Um limite entre nós; Aibileen Clark, em Histórias Cruzadas; Ma Rainey, em A voz suprema do blues

No livro Em busca de mim, Viola conta sobre seu passado e a decisão de parar de fugir dele, em um corajoso movimento de olhar para si e sua história, regatando memórias e construindo sua identidade. Ao folhear as páginas, os leitores acompanham sua jornada desde o apartamento precário em que viveu com a família na infância até o reconhecimento público, em decorrência de sua atuação nos palcos. E o resultado é, me aproximando de palavras de Oprah Winfrey, uma biografia rica em experiências de vitória, superação e cura.

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A própria autora define sua obra como “uma reflexão profunda, uma promessa e uma declaração de amor” a si mesma. É um canal que dá visibilidade a vivências pessoais num processo que visa dar a devida atenção a sua história, procurando superar ou mesmo entender o percurso que a conduziu até o presente. E isso envolve olhar também para o passado sem glamour, um passado complicado e com episódios que causaram vergonha, trauma e a levaram a superar desafios.

Mas, afinal, de que serve escrever a própria história e revisitar episódios que de tão difíceis de serem processados podem ter ficado recalcados por muito tempo ou disfarçados sob histórias parcialmente verdadeiras modificadas para que se tornassem mais palatáveis?

“Memórias são imortais. São imperecíveis e precisas. Tem o poder de dar alegria e perspectiva em tempo difíceis. Ou podem sufocar. Definir você de uma maneira que tem mais a ver com a percepção limitada das pessoas do que com a verdade.”

(Viola Davis)

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Por meio dessa escrita memorialística, com narração em primeira pessoa, são apresentadas experiências, narrativas, fragmentos de falas que ficaram ecoando na memória ao longo dos anos e que contribuem para uma percepção mais atenta da própria identidade para, assim, registrar o vivido com “honestidade radical e coragem de abandonar as máscaras e apenas ser”, como formulou Viola.

Na obra de cerca de 260 páginas, organizada em 17 capítulos, acompanhamos a alegria de seus familiares com o nascimento de Viola (capítulo 2 – Meu mundo); a descoberta da arte como possibilidade de mudar a realidade socioeconômica e mais que isso realizar um sonho, além da importância da representatividade na TV e do impacto de ver uma mulher negra nas telas (capítulo 6 – Meu propósito); os desafios causados pela invisibilidade da pobreza e da desigualdade social (capítulo 8 – Vergonha silenciosa e secreta); o período de audições para a Juilliard (capítulo 13 – O florescimento), entre outros episódios.

À medida que se avança na leitura, questões referentes a gênero e raça se fazem presentes com maior nitidez, permitindo perceber o silenciamento da fala / voz da mulher; a percepção de posse masculina sobre o corpo feminino (abrindo espaço para abusos, estupros e importunações sexuais); a diferença de tratamento dispensado à mulher, conforme variem as características físicas / étnicas / raciais; e o “estranhamento” causado por uma mulher negra buscando algo que “não seria para ela” em “lugares que não estavam acostumados a vê-la nessa posição”.

Em busca de mim possibilita, assim, o debate e a reflexão sobre alteridade e diferença, sobretudo no que diz respeito a identidade e negritude e à relação entre essas características e os espaços de poder que estão disponíveis / acessíveis a determinados indivíduos como fruto da formação social e histórica americana – e também da sociedade brasileira, que inclusive aparece na narrativa com uma personagem que protagonizou condutas racistas contra Viola.

Tendo em vista essas questões, o discurso de Viola ao receber o Emmy de melhor atriz em série dramática – a primeira atriz negra a recebê-lo – por sua atuação em How to get away with murder (aquela fala icônica e histórica, lembra?!) se torna ainda mais potente.

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