Músicas que Envelheceram Mal

Relembre canções que hoje seriam consideradas problemáticas

Por: Ludmila Barros

Cena do videoclipe da música “Misery Bussiness”, do Paramore. / Imagem: Reprodução

O tempo passa, o tempo voa… Acompanhando o relógio da vida que não para, vemos diversas transformações na sociedade. A difusão das mídias sociais que compartilham conhecimento é uma realidade do nosso mundo globalizado, bem como o esforço para uma educação mais reflexiva para formar pessoas conscientes. Estamos em constante evolução e debate para criarmos um universo mais respeitoso para todos. E claro, essa discussão não poderia ficar de fora do nosso amado mundo da música.

Se antes cantávamos a todo vapor versos de linhas duvidosas, hoje pensamos duas vezes antes de soltar a voz ou simplesmente cantamos com tons de consciência. Porém, se você não liga para as letras e se deixa levar pelo ritmo, tá tudo bem também. O objetivo deste texto não é julgar os artistas e suas composições, mas sim observar as músicas do ponto de vista crítico. As letras nem sempre representam a visão da banda ou artista sobre determinado assunto. Elas podem ser uma narrativa ficcional, uma história pessoal com versos amargurados sobre a vida ou apenas uma canção provocativa, que consequentemente gera publicidade e burburinho.

A seguir, relembre cinco canções com letras duvidosas.

1- “Misery Business” do Paramore (2007)

A música que alavancou a carreira da banda Paramore fala sobre a disputa de duas mulheres interessadas no mesmo homem. Há uma rivalidade entre elas e em um dado momento, é usada a palavra “whore”, que significa vadia:

“Uma vez vadia, sempre vadia, me desculpe, isso nunca vai mudar”.

Em 2018, a banda afirmou que iria parar de tocar “Misery Bussiness” por conta da falta de identificação com a letra. A vocalista Hayley Williams escreveu a música aos 17 anos e admitiu que era cabeça fechada. Após a pausa de quatro anos, o grupo voltou a apresentar o hit e o retorno foi registrado em outubro de 2022.

2 – “Me Lambe” dos Raimundos (1999)

Uma das grandes bandas do rock brasileiro, os Raimundos, se destacou no cenário musical por suas letras cômicas. Contudo, o hit “Me Lambe” toca em um tema sério: a pedofilia. A composição fala de um homem que tem interesses em uma menor de idade.

“O quê? O que que essa criança tá fazendo aí toda mocinha?

Vê, já sabe rebolar, e hoje em dia quem não sabe?

Se ela der mole, eu juro que eu não faço nada

Dá cadeia e é contra o costume”

“Quantos anos você tem?

Eu acho que com a sua idade

Já dá pra brincar de fazer neném”

O personagem da música acaba sendo algemado.

Em 2020, ao ser questionado sobre a letra por uma fã no Twitter, o saudoso baixista Canisso afirmou que a canção toca em um ponto complicado. Ele chegou a afirmar que “Me Lambe” de fato envelheceu mal.

Imagem: Site Whiplash

3 – “One in a Million” do Guns n’ Roses (1988)

Faixa integrante do álbum “Lies”, de 1988, o mesmo que tem o mega hit “Patience”, a letra de “On in a Million” cita policiais, negros, imigrantes e homossexuais de forma depreciativa. Além disso, utiliza os termos “nigga” e “faggot”, altamente preconceituosos e pejorativos, para se referir aos negros e os imigrantes iranianos gays.

“Policiais e crioulos, está certo/ Saiam do meu caminho”

“Imigrantes e bichas/ Não fazem sentido para mim/ Ele vem para nosso país/ E acham que podem fazer o que quiserem/ Como começar um mini Irã/ Ou disseminar doenças terríveis”.

Em entrevista à revista Rolling Stone em 1989, o vocalista Axl Rose se defendeu dizendo que a letra era sua visão da conturbada Los Angeles dos anos 80. O fato é que a música provocou diferentes opiniões na banda no decorrer do tempo e gerou certo incômodo. Em 2018, os músicos decidiram deixar de fora “One in a Million” do box comemorativo de 30 anos do álbum “Appetite for Destruction”.

4 – “Lôraburra” de Gabriel, O Pensador (2000)

Gabriel, O Pensador é um rapper e compositor carioca que ficou marcado por suas letras provocativas e críticas. Quem lembra do clássico “Cachimbo da Paz” em parceria com o cantor Lulu Santos em que falam de problemas sociais? Entretanto, a faixa “Lôraburra” é considerada bastante problemática hoje em dia. Ela pode ser uma análise da sociedade brasileira machista e misógina ou uma letra puramente preconceituosa e repleta de estereótipos ao se tratar das mulheres loiras.  

“Existem mulheres que são uma beleza/ Mas quando abrem a boca

Hmm que tristeza! Não não é o seu hálito que apodrece o ar

O problema é o que elas falam que não dá pra aguentar/

Nada na cabeça/ Personalidade fraca

Tem a feminilidade e a sensualidade de uma vaca

Produzidas com roupinhas da estação/ Que viram no anúncio da televisão

Milhões de pessoas transitam pelas ruas mas conhecemos facilmente esse tipo de perua/ Bundinha empinada pra mostrar que é bonita

E a cabeça parafinada pra ficar igual paquita

Lôrabúrra!”

Em uma entrevista à revista Marie Claire em 2019, Gabriel reconheceu a agressividade da letra e diz ter aprendido sobre igualdade de gênero com a mãe. Na ocasião, ele havia sido convidado pelo O Boticário a fazer uma nova música baseada na original destacando o empoderamento feminino.

“Ao longo dos anos, passei a me sentir mal com a agressividade da letra. Ela foi feita para chocar, mas não combinava com minha personalidade. Por isso, decidi retirá-la das apresentações. Acredito que há várias outras maneiras de passar uma mensagem sem ser agressivo, principalmente com as mulheres”

5 – “Barbie Girl” do Acqua (1997)

Pegando carona no aguardado longa-metragem “Barbie”, com lançamento previsto para o dia 20 de junho de 2023, iremos recordar o hit “Barbie Girl”. Lançado em 1997 pelo grupo dinamarquês Acqua, a faixa conta com estereótipos e uma dose de submissão feminina ao narrar o relacionamento da boneca mais famosa do mundo e o seu namorado Ken no mundo cor de rosa.

“Eu sou como uma Barbie vivendo no mundo da Barbie

A vida de plástico é fantástica

Você pode escovar meus cabelos, me despir em qualquer lugar

Use a imaginação, a vida é sua criação

Eu sou uma loirinha bobinha num mundo de fantasia

Me vista, aperte bem, eu sou sua bonequinha”

Em 2005, a cantora Kelly Key fez uma versão do sucesso do Acqua.

E aí, o que você achou dessas letras? Comenta aqui embaixo e até a próxima!

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