Por Aline França-Souza

Imagem: ContiOutra

Franz Kafka é um dos meus escritores preferidos. Nascido na Chéquia (ou República Tcheca), em 3 de julho de 1883, buscou no Direito uma profissão em que o fato de ser judeu não fosse um empecilho – como o era para quem tentasse ser funcionário público. Dividindo-se entre a literatura e o trabalho na área de seguros relacionados a acidentes de trabalho, escreveu várias obras, dentre elas, O Processo e O Castelo. Mas seu livro mais conhecido é A metamorfose. Você já o leu? É aquele em que o personagem principal, Gregor Samsa, acorda um dia transformado num inseto enorme, possivelmente uma barata. Vale a (re)leitura.

Começa assim:

“Quando certa manhã Gregor Samsa despertou depois de um sono intranquilo, achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto. Estava deitado sobre a dura carapaça de suas costas e, ao erguer um pouco a cabeça, viu a figura convexa de seu ventre escuro, sulcado por pronunciadas ondulações, em cuja proeminência a colcha mal podia aguentar, pois estava visivelmente a ponto de escorregar até o solo. Inúmeras patas, lamentavelmente esquálidas em comparação com a grossura comum de suas pernas, ofereciam a seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência”.

Imagem: Garimpo Literário

A partir das implicações desse acontecimento incomum na vida do personagem, que vivia para trabalhar e sustentar a família, é possível refletir sobre como a sociedade valoriza a produtividade do ser humano e sua utilidade.

                Hoje vamos falar sobre “Um artista da Fome”, conto que narra a história de um artista famoso por jejuar por longos períodos. Durante anos, despertou a atenção do grande público, mas com o passar do tempo, os interesses mudaram e o artista (cujo nome não aparece no texto) cai no esquecimento e desprestígio.

                Nos tempos de glória, fazia suas apresentações em uma jaula vigiada permanentemente por 3 profissionais (para que não restasse dúvida de que o artista não tinha acesso algum a comida). Essa jaula era colocada ao ar livre ou deslocada para salas onde o público podia observar e ao final de quarenta dias, aquele feito incrível era celebrado. E se oferecia, enfim, algo de comer ao artista.

               Conforme o gosto do público foi direcionado a outras opções de entretenimento, o artista da fome se viu em declínio. Foi exercer seu ofício e dom em um circo, onde estava decidido a ultrapassar a marca de quarenta dias sem comer. Lá o colocaram em uma jaula posicionada em um corredor de passagem a outras jaulas. Inicialmente, a placa indicando a quantidade de dias em que estava sem comer era atualizada diariamente. Com o passar do tempo e considerando que nem no circo esse artista despertou interesse do público, as placas pararam de ser atualizadas e o artista foi ficando no esquecimento.

                Pessoas passavam e não paravam em frente a sua jaula. Ninguém o via. Até o inspetor do circo esqueceu-se dele. Invisível. Deixou de ser produtivo e virou algo incômodo e descartável.

                A partir dessa reflexão sobre invisibilidade, fome e morte podemos encontrar um ponto de contato com a realidade brasileira. Quantos enfrentam a insegurança alimentar, quantos enfrentam a fome? O quanto dessa problemática foi agravada pela ausência de ação pública nos últimos anos?

Que caminhemos por novo caminho em que esse espetáculo saia de cartaz. Não pela morte dos personagens, mas por um olhar atento aos problemas socioeconômicos que levam a esse cenário.

                Kafka, com seus escritos, sempre suscita reflexões profundas. Por isso, a leitura ou releitura de seus escritos é sempre produtiva. Fica a dica!

Kafka, Franz. Um artista da fome. São Paulo, Martin Claret, 2010.

Curiosidades:

Desde maio de 2016, a Organização das Nações Unidas também usa a forma reduzida Chéquia para se referir à República Tcheca.

Dia 3 de julho, nascimento de Kafka, também é aniversário do meu pai. Beijo, pai.

Um artista da Fome é um dos poucos escritos de Kafka que não foram incluídos por ele na lista de material a ser descartado após sua morte.

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